Não há muito o que deixar para os vivos enquanto, entre eles, estive sempre morto. Fiz meu testamento há algum tempo e tenho a impressão que cada bem me foi levado sem que eu mesmo percebesse.

Deserdei meu coração ao mundo e, sobretudo, a mim mesmo. Foi há muito tempo quando o mesmo se soube longe das festas das ramas. Tirei-o do trabalho físico de pulsar quando o descentralizei de toda energia, convergindo-a ao pensamento. Desde então, em cada segundo ele desintegra como se ao pó já tivesse voltado. Vez ou outra o mesmo pó retorna às mio-paredes e o petrificam.

Hoje, neste testamento, pretendo a ele um herdeiro, porém minha humildade não clamaria por um ourives, tampouco escultores ultrassensíveis que enaltecem amores exagerados. Não os tive, mesmo que exagerados os sentissem. Petrificado e empoado, dôo-o às mãos de um escavador qualquer. Que este faça bom proveito e novos sulcos, que talvez sirvam para que neles cative-se algo ou alguém.

Como eu havia escrito, não há muito o que doar, já que deixei de viver e ambicionar o mundo das matérias. Aliás, não, totalmente deixados de lado, quero os meus cigarros. O tabaco, meu maior companheiro, deve estar comigo no momento em que de seu mundo eu fizer parte. Meu pulmão, pressinto, daqui das trevas, será mais belo e menos julgado.

De meu bem, o mundo já está cheio. Não sei se “doá-los” seria a palavra correta, já que me existem em abundância os pensamentos: deixo-os em bytes ou em folha; deixo-os em voz, em semblantes, em sorrisos e em algumas quase indecifráveis sensações; deixo-os vivo, enquanto deles jazo…

Anúncios

Quando o sol visita a janela, o que estava escondido aparece. A cama, nem macia nem dura, exala o bege assim como os travesseiros. O piso, um cinza esverdeado, passa a esfriar menos os pés. Uma pedra prende a porta aberta, como se desejasse abrir este caminho pela eternidade. Uma cadeira, duas, três confabulam seu tamanho: a primeira é pequena, onde só crianças sentaram; a segunda lembra um passado distante desfraldado pelo ventilador que a assenta; a terceira sofre meu peso e meu pesar.

Um teclado mudo tem sinais de poeira e por isto parece chorar emudecido, no silêncio que nunca espanta males. Alguns tênis e chuteiras fazem fila, junto ao armário feito por encomenda. As partes do armário encaixam-se perfeitamente nos flancos da cama, como que desenhados em perfeição. Há duas partes, a direita e a esquerda. Na direita, duas portas. Não lhes ouso abrir por sabê-las guardando a inquietude de uma alma desorganizada. Na esquerda, uma só, onde prendi memórias de um coração quente.

Há fios, canetas, joysticks, livros, cd’s, talento de pintura de uma mãe, caixas de som e souvernirs por toda mesa. Uma peruca do melhor estilo black power espera a chance de trazer sorrisos e um copo de água hidrata a secura de colorido. Um abajur exótico e futurista ajuda a apagar a negrura eventual. Uma chave, gavetas e uma CPU. Esta última, parece brilhar desde que nasceu, juntamente com os milhões de vagalumes formando um retângulo, nítidos, rutilando as cores do mundo, que se dependuram e bruxuleiam na parede.

A alva desta parede torna-se também bege quando o frio uiva lá por fora e dourada quando não. Aonde se lê estes escritos, mais vagalumes. Muitos! Belos, coloridos. E em sua frente alguém sem motivo para descrevê-lo, mas o fazendo ainda assim, jurado pelo tédio e pela projetada falta de sorte, profissão, vontade ou vergonha.

E enfim, o reflexo de um sem-vergonha, vestido de palavras que nunca lhe trarão felicidade. Este apenas passará, escrito nos olhos de outrem, como se fosse um souvenir descrito por Deus em qualquer outro quarto de Sua casa…

Minha Última Viagem é mais uma de minhas tentativas ‘escrevinhativas’. Todo homem deveria “plantar uma árvore, ter um filho e fazer um livro”. Ainda não fiz nenhum destes três, mas tenho esboço para todos.

“Minha Última Viagem” é uma história extraordinária de quando realmente conseguiu-se viajar para o mais além do espaço. Uma aventura insólita. Um descobrimento novo e atual, coberto de informações verídicas sobre esta infinitude espacial.

Para dar-lhes uma mínima noção, deixarei uma palhinha da história e, a quem puder comentar, agradeceria desde já pelo estímulo ao término da história. Afinal, preciso de um filho, mesmo que este nasça de uma árvore que foi escrita.

Abraços!
————————————————————————-

Quando garoto, costumava estar viajando. Não havia tempestade ou bronca que me impedisse de voar. Voava pelos campos da imaginação, tão só e contente. Por vezes, em plena sala de aula, os minutos passavam como velocidade da luz: num momento eu tirava os livros bem encapadinhos e cheios de orelhas da mochila, no outro, via-me guardando. Nunca soube realmente o que era o ‘momento presente’. Aliás, o momento presente me existia em diversos mundos. Talvez, no meio da aula quando diziam meu nome, eu proferisse: “– Presente!” – porém, era besteira: estava mais ausente que qualquer aluno.

Nunca fui um menino desconcentrado, pelo contrário, sempre sabia tudo que se passava em sala de aula. Hoje penso que quem aprendia era meu inconsciente, porque costumava sonhar com as aulas dos dias, mas não sempre. Havia uma matéria que eu odiava: estudos sociais. Naquela época englobava juntas história e geografia. Nunca fui de querer saber de lugares: eu nunca estava em lugar algum e ainda aterrissava em todos! Sobre as histórias, não queria sabê-las, mas criá-las.

Vivia com cinco irmãos mais velhos e cada um dele tinha uma dificuldade. A minha era conviver com cinco irmãos mais velhos. Minha palavra era a última das crianças, quando era. Eu costumava gaguejar e entre um “e-eu vo-vou”, escárnios me reprimiam e eu voltava só, ao pensamento. Meu desejo era ser telepata e poder explicitar tudo que quisesse, sem, então tartamudo, ter que dizer uma palavra. Foi quando conheci Helito.

Helito era meu vizinho: morava com os avós e era tão franzino e pequeno que ninguém o enxergava. Não sei hoje se massa muscular ou cerebral ajuda às pessoas prestarem atenção n’outras, mas aprendi que a beleza é uma característica que ajuda. Helito não era belo, muito menos eu, contudo, nossa conversa era quase telepática.

Qualquer coisa que víamos ou compartilhávamos, os dois pensavam a mesma coisa. Bastava um olhar pro outro que explodíamos na gargalhada ou na surpresa de nos saber tão iguais.
Por toda minha infância passei calado, viajando, às vezes com Helito e noutras solitário, naquelas viagens mais particulares. Cresci assim e tudo que eu aprendi foi ter aversão ao mundo de fora, porém hoje, aos meus 30 anos, pareço ter uma grandíssima experiência deste mundo interior.

Num dia de inverno antes de completar 27 anos de vida eu conheci Julio Verne. Estava de férias na época e como era compulsivo por leitura, passei num sebo e trouxe todos os livros que havia prometido conhecer. Saberia exatamente sobre cada história de cada autor que só de nome conhecia e jamais houvera lido. Era-me horrível ficar de fora das conversas literárias, já que uma das minhas paixões era a leitura. Nos encontros de livros que eu participava, – que eram basicamente nerds discutindo sobre a literatura – muitas vezes alguém vinha com um autor que me vislumbrava o nome, mas não conhecia realmente. Isto me deixava extremamente mal-humorado.

Comecei a ler Julio Verne e me apaixonei pelas suas viagens. Achei parecidas com as minhas ilíadas interiores que tanto prezava, ainda que parecessem tão irreais! Foi quando eu comecei a questionar se minhas viagens interiores não se poderiam exteriores. E se pudessem, – eureka? Loucura? – como eu poderia conquistá-las, desbravá-las? Este foi o início de uma grande e genial invenção; o início de uma viagem ainda mais extraordinária que as meio ficcionais de Julio Verne. Foi quando ganhei o espaço!

Ah! A Rua!
Não aquela da Alfândega, um deserto onde as areias tão juntas, são pessoas, quentes por ironia.
Não aquela da Consolação, consolada pelas buzinas dos estressantes engarrafamentos.
Não aquelas de Pompéia! Engolida e escavada pela regurgitação d’uma vovó!
A minha rua!
Onde os fios de alta tensão embrulhavam e seguravam as quimeras pueris:
os meninos a correr pelo sonho preso à rabiola!
Mais tarde talvez soubessem-se cabestro,
burlesco,
burleto…

– “Avuou, bora lá!” – Gritavam os pés ‘sujismundos’ em uníssono!

E lá se iam os fios provocarem alta tensão aos pais!
Nem tão longe de nós, as meninas já eram safadinhas.
Não havia uva, pêra ou maçã a se comprar
nas intermináveis feiras do beijo.
O amor era lídimo! E a brincadeira, já, falsária!
Cada bulica ganhava uma propina:
“- Mais areia por favor!” confabulava um futuro engenheiro (ou pião!).
E as bolas tilintavam! Quebravam! Os dedos mais pareciam lareira de São João,
fartada do fogo louco do divertimento!

Ah! A Rua!
Onde Dona Selma alvejava coca-colas nos prodígios Ronaldinhos –
que, de fato, nunca foram, encovilados na mesmice operária que se puseram um dia.
Seu Paulo, eram dois: o Rei maneiro que de cuecas nos tirava sempre o sorriso que explodia por admirar sua princesa; e o vulgo Barbaulo, que mal sabíamos se era a barba ou sua boca suja que espetava!

Ah! Meu crendeiro morto!
Ah! A Rua!
Ah! Seu caminho!
Quanto mais crescemos
mais nos parece torto…

Desde que nasci, os feixes do sol me convidam abrir os olhos.
Vou despertando-me dias, nem sempre iguais, nem sempre diferentes e nunca, neles, deixo de olhar pela janela.
Cresci fitando das frestas meu vizinho lá de cima.
Mil vezes trocadas as janelas, inda assim o sol é o mesmo, a vida é a mesma, o dia é o mesmo e o vizinho está lá.
Não me adianta tornar distendidos os braços. Eles jamais tatearão o vizinho.
Ele, por sua vez, nunca se soube cansado de me escarnir e tampouco diminui seu sorriso (nem o meu por isso).
Não me quero mais boneco de vitrine!
Não desejo uma janela que me limita, me esvaece conjecturas; que estão de braços abertos para o vizinho enquanto, estacado, só o tenho olhos.
De incessantemente olhar, minh’alma não se aguenta receber sóis, azuis e cores adjacentes e nem sequer excita com favônios meigos.
Meu olhar deseja o vizinho.
Ele está lá, sempre…
Eu o sei, o conheço, o desejo, contudo esta infame janela me idiotiza tocá-lo.
Meu vizinho existe e talvez se queira meu.
Está aqui, tão do lado… e tão longínquo!
Meu vizinho: nada mais que meu sonho…

Ao pé do altar, o padre profere:
“– Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença…”.
Quase sempre a resposta é sim. Talvez a boca não pudesse estar preparada para dizê-lo, porque, de fato, precisá-la-ia sintonizada com o burburinho interior da verdade, nada mais que a sensação de aceitação total daquela que nos compete o corpo, a vida e a alma – a companheira.

Ah! Manuel Bandeira diria que as almas não se compreendem, apenas os corpos. Discordaria, sentimentalmente, mas acabo por me sentar ao lado de sua presciência, afinal, naquela época, talvez, as pessoas já não mais sentissem suas almas, ocupadas com uma realidade que não faz do mundo, o Mundo.
Quantos mundos, realmente, temos no Mundo!? Uns bilhões!?

Sabe-se: o mundo ficou mouco. E loucos são aqueles que não compartilham desta ínfima sabedoria. O silêncio se prolonga afora ao abstrato. Torna-se paredes cada vez mais densas, encorpadas ante duas pessoas tão próximas, quase unas!
O não-dito se acontece como tísica da inspiração do amor. Machuca e dá pontadas até ser dito, sobretudo, nunca o é!
E os casamentos viram divórcios; e os amores viram indiferenças, ódios, nem sempre verdadeiras indiferenças tampouco verídicos ódios assim. Só resta o silêncio.
O silêncio dos corpos, o silêncio da vida… o silêncio das almas!
E a mouquidão vence as batalhas interiores, esvaindo mundos…

Por que algumas coisas acontecem?
Será para nos sentirmos sempre tristes?
Será uma reviravolta da Natureza, quando ela é machucada?
Não sei.
As coisas acontecem.
Tudo que se fala tem um intuito.
E cada intuito, leva-se a um objetivo.
O objetivo aqui, é simples:
Viver.
Na mais simples e leal forma que puder.
Coisas acontecem.
Outro dia, houve uma conversa que acabou por chegar nos ouvidos de outrem.
Chegou, porque tinha que chegar.
É o que fortalece. Ou enfraquece.
Agora, não tenho que me preocupar.
Afinal, Deus sabe minh’alma. Ele quem cuida e se imbui.

Nunca fui de machucar pessoas, e parece que isso tem acontecido muito.
Não quero ter que machucar ninguém mais.
Quisera, pois, ter uma dose de morte em vida, seria totalmente revigorante.
Morrer não é algo que é, e sim, o que ‘não é’.
Não é mais: sensações; saudades; amor; carinhos; viagens; pensamentos.
Mas também não é sofrimento; não é preocupação; não é tristeza; desamor; luto. Morrer é uma paz eterna, aquela que todos procuram.

Eu não sei quais são os meus planos.
E acredito que qualquer pessoa também não saiba; tenham, entretanto, algum vislumbre, talvez.
Num sentimento que te impele à frente, como uma gota a ser levada pela enxurrada do rio.
Mas a vida não é só sentimento.
É só paz.
Que venha a paz.
E para todos.

Era noite. A lua já ia preguiçosa pousada nas nuvens, que bruxuleavam o choro diário da vida. O vento era forte e espaçoso, quase onipresente. Como um educador, comandava os movimentos dos eucaliptos e alvoroçava a ramagem. O guia e sua cadela passeavam mata a dentro e o cheiro de umidade, na pele (e no pêlo) da experiência, não os amedrontava. Havia pilha e mantimentos. Procuravam um local para que pudessem passar aquela noite. Pareciam conhecer exatamente cada centímetro daquela floresta. Ainda que tivesse escuro, a lanterna cortava num grandíssimo diâmetro o negrume do caminho e, por vezes, revelava a fauna em polvorosa, esperando a presença da rainha chuva, que irritadiça, punha-se a demorar.
Sua amiga peluda mostrava impaciência com as narinas, parecia farejar alguma falta de rotina. Ao longe, avistaram uma jovem. Talvez estivesse perdida, mas nada havia em seu semblante. O guia tentou imaginar por que uma jovem tão bonita quanto aquela desafiava o agreste que a eles não mais parecia tenebroso, mas ainda era. Hesitou em aproximar-se, mas perguntou:
– Estás perdida?
E ela respondeu:
– Quisera realmente saber!
– Não tens medo da escuridão da mata? Ou de não saberes o caminho de volta? – Perguntou o guia.
– Que perdição poder-se-ia, se é a escuridão que talvez procure; se o caminho, talvez ainda não exista.
O guia resolveu perguntar seu nome. A jovem, prontamente respondeu:
– Meu nome é Alma.
Encucado com tamanha incerteza da moça e pela infixidez das respostas finalizou:
– Srta. Alma. Toma cuidado com o escuro! É na noite da natureza que a morte tende a foiçar. Quiseres companhia, segue conosco o rumo!
A moça deu um sorriso débil e no semblante cândido respondeu:
– Senhor, rumo? Não conheço este lugar, mas parece não me amedrontar. Jamais consegui vir tão fundo à escuridão. Talvez, para mim, não haja caminhos e, tão parada, sinto que a tempestade já-se me-quer ceifada. Porém, olhar as luzes me alentam, senhor. Os relâmpagos, a Lua; esta impõe, neste momento, elevado o meu medo por escuro que se esfaz nos lampejos rutilantes daquelas nuvens caçoantes. Agora sei que porvir é um entendimento, uma identificação; uma compreensão de tudo que sempre pude, apenas, entrever. Talvez deva caminhar ao seu lado sim, senhor, enquanto estou a me esperar encontrada. Vir a este aparente Nada, energiza… – Neste momento a tempestade caiu. O orvalho refletia toda sua tez revelando uma Alma quase nua.
– O senhor… poderia dizer, ao menos, seu nome?
O guia respondeu:
– Meu nome é Tempo. E esta cadela chama-se Fé.
E desde então o caminho de volta tem sido fácil…

Ao abrir este arquivo.
A página não estava em branco.
Olhei com olhos de editor amoroso.
Configurei a margem.
Configurei a medianiz.
Configurei tudo.

Foi quando comecei a escrever.
Escrevi sem parar.
Sem mesmo formatar.
Sem colorir.
Só queria o texto. Bruto.
Foi então que achei que deveria colorir.
Coloquei pedacinhos aqui, uma borda, um marcador.
Marquei as melhores f(r)ases. As melhores linhas. Valorizei o texto.

Ajuda? Não pedi. Confiei na intuição.
De repente…
…vi-me no zoom de mim.
Era tão lindo!
Que imprimi você em mim!

Agora, momento eternizado…
…conduz-me a continuar escrevendo…
…formatando e colorindo…
…a cada dia, a cada página…
…e configurar sempre…
…para que a tinta da impressão…
…não se esfume.

A vontade quero assim: me formatar.
Fragmentar não dá. É impossível escanear-me totalmente.
Deletar arquivos de mim. Fotos, vídeos, algumas lembranças.
Desligar meu autoexec. Apagar todos os dlls, os executáveis, os configurados para funcionar logo ao acordar pela manhã. Que nada funcione!
Poluir, aviltar, corromper tudo que já se parece corrompido.
Deletar meu autoconhecimento é o mais importante.
Não saber; enleio!
“Um gole de amnésia para paz!”

Começar do zero, sem upgrade, sem vírus, sem falhas e sem bugs.
Bruto!
Situações que nos acontecem acabam por nos condicionar em algo, e este condicionamento traz a falha.
Tudo é falha. O ser é falho. Imperfeito (não me posso aceitar generalizações! Isso talvez seja mais uma falha).

Nietzsche era sábio. O ser humano precisa ter poder, porque o poder dá o controle.
Mas, nada se ‘pode’ controlar.
Tudo é um emaranhado de descontrole e infelizmente não se pode simplesmente digitar “format”, sequer fazer com que tudo se esvaeça.
O que esvaece é a sensação do poder, ficando a impressão da inépcia; ficando a impressão de que nada sabemos e por isso, nada podemos.
Talvez, o que saibamos atrapalhe; e não é pouco!

Meu desejo neste domingo é voltar a ser simples e ignorante.
Fazer parte da penumbra… e por que não do total negrume?
“Poder” ser uma essência, ao invés de um mundo vasto.
“Poder” ser um nada espalhado por tudo.
“Poder” não querer poder.
“Poder” descontrolar-me, assim como o todo é descontrolado.

Só quero a paz de nunca mais.
Saber menos, sentir menos, até me esfumaçar na paz, como uma pomba (branca) se perde, engolida pelo anil celeste.
Que mais posso fazer, senão, simplesmente, não poder?
Que os fantoches riam de mim, e caçoe de meu asnear.
E que eu realmente profira a mais bela (ou horrível) essência, mas que seja bruta.
Não importa o jugo.
Importa é a nonada.
Vou dar um reboot…

Como não se pudesse falar, acabei roendo freqüência por entre as cordas vocais.
O timbre emanou esmaecido e se foi acelerando a cada atrição de corda. As idéias saltando e pululando, se entusiasmaram ante o mundo exterior. Eram como bombas-surpresas, que explodiam nos semblantes superficialmente amenos.
Como não se pudesse encarcerá-las no interior, colori meu mundo a outrem. E olha que o que se via eram nuanças escuras, e sequer se poderia ligar a imagem (ou idéia) ao arco-íris. A propósito, eu tinha a certeza de que as cores, nalgum momento, ainda que fossem umbrosas, brilhariam o interior de cada ser que pudesse, inicialmente, odiá-las, embora alguns começantes desfaleciam e espargiam em surdez.
Em se espargindo em surdez – acabei assim me pondo em seus lugares – compreendi a diferença entre se poder, instintivamente, falar o que quer, sem ruídos; e exprimir-se com o intuito de sarapantar as impressões alheias. Assim surdo, ainda ouvia o ribombo dos amoladores de facas (grandes calistos da vida, era como havia aprendido sobre eles). Por mais espantado que eu mostrasse, ainda assim, minhas ideias jorradas como facas sem amolar, eram realmente coerentes. Sim, talvez não houvessem amoladas, mas o que vem do interior não é sempre tão mistifório?
A cada eureca, um telegrama interior confuso borbotava. Chegava às sensações minhas e acrescentava emoção em demasia. Como eu poderia estar mudo, se meu corpo dançava “brasileirinho” tão mais rápido que descompassava?
Assim descobri como são minhas expressões: desordenadas quanto meu sentir e que causam impressões nenhumamente debilitadas.
Portanto, que não se assustem com as ondas de minhas cordas vocais.
Afinal, por mais que não acreditem neste revolucionário revoltado – ou simplesmente num brincante premeditado que gosta de chocar – saibam que sou nada menos, nada mais, que mais um mundo a se desbravar e se nivelar a sensibilidade.
Talvez de sonho. Talvez de realidade.
Cada mundo é, na maioria das vezes, oco, ainda que ímpar. Cabe a nós, cada qual, orná-los!
Compartilhemo-nos!

É quando fecho os olhos…

Invista-me, Sinestesia!
Vejo um poeta a cantar.
Ouço o verdejar de um homem.

– Ah! Menino. Não menino! Sim menino!

Palpo o Mi-Bemol no ar com as mãos aveludadas.
Suas ondas sonoras entram em reação química e se transformam em marrom-glacê!
O aroma de seu xarope oloriza a visão.
É um mundo real. Não é ilusão.
É a força inconsciente – ou subconsciente – que roga pela liberdade; pela expressão!
É assim então que a coruja-cega do ninho do incônscio reverbera sinestesias insanas.
Pipila pela efemeridade quão puder!

– E me solto assim, adejo sinestesias no vazio dos sonhos! – Sorri a coruja.

Ah! Quem dera me saber savant! Como já não me fosse?
Toco pixels com olhos de viciado. Vejo, com minha boca, o molhado sápido de uma divindade!
Energiza! Incinera! É carbo e hidrato!

Até quando o som arpeja a vida às sete da manhã, todos os dias.
Aterriso novamente à ilusão.

E aquele mundo fantástico apenas crocita no âmago, quando que por vezes troveja almejando vir à superficie.
O meio são as palavras:
mudas, apenas desenhadas;
fadadas a bailar por sobre as linhas das folhas;
faladas em olhos de outrem;
ouvidas nos corações de outros mais;
sentidas na subjetividade d’outros poucos;
As próprias, que são rodamoinhos, e arquitetam-se em frases, ou versos, que apenas se encaixam em puro lirismo pelo ouvido oculto do poeta.
Não me ouso poeta.
Mas oiço…

Atirei-me, pois,
com ímpeto
empunhando a raiva imane!
Que força alucinante! Saraiva
de lavas!

Fatalmente avariado
meu corpo sobrepujara-se
e investira o algoz
dantes risonho
por fanar dois sonhos.

A ajuda não viera.
É quando vejo
que só havia olhos:

“- Meu irmão,
toma, nesta instância,
meu coração,
por toda nossa infância.

– Sangre a felicidade
como esta nuca
que se efunde
em meu fero punho!

– Sonhe infindo, em honradez
Pois, quando em eu e você,
por sorte,
a torpe morte,
jamais terá vez.”

E o cupido batalha, trabalha, mostra ação.
Deixa coracões perfurados nas mãos de outrem…
…que seguram atabalhoadamente sem saber o que fazer.
Uns arriscam-se a arrancá-lo a flecha.
Outros o tratam com afabilidade…
…se manchando de carmim com toda sua energia.
Outros mais…
…reclamam e filosofam sobre para que serve aquilo…
…ainda que já saibam que o de si nunca serviu.

E os corações são amados…
…trocados…
…machucados…
…apertados de saudades…
…desejados…
…amparados.

E o cupido?
Ele só faz o trabalho.
Apenas isso.
Deixa de lado as diferenças…
…as indiferenças…
…os preconceitos…
…as dificuldades…
…os empecilhos…
…e alveja! Certeiro!

Não se tem como correr.
Como debandar…
…como fingir que não sentiu a terna picada…
…como desrespeitar o trabalho de um Deus…
…que está ali…
…e fez por ti!
Porque pediste!
Porque precisas!
Porque…
…ninguém melhor que ele…
…pra mostrar que:

“O amor é paciente.
Leva tempo –
Sofrimento –
Mas nunca mente.
Em nenhum momento.”

Que, não mintamos para nós.
Pois a flecha…é etérea.
Não se tem como tirar.
Não se tem como esconder.
Não se tem por que temer.

Sabe aqueles dias os quais parece que as linhas de uma folha de papel voarão em nossos pescoços e nos enforcarão?
Como se fosse um capricho da mesma para se tornar ainda mais branca?
Não sei se é a falta de oxigênio ou se realmente a linha está me asfixiando.
Bramo sandices no intuito de me salvar.
Ou não.
Enfim.

Tenho lido muito coisa ultimamente.
Da mais breve notícia científica às filosofias de botequins.
Gostaria de estar ouvindo dos jogadores no pebolim, ao invés de ler.
Talvez tenha dito isso pelo meu recente-novo-eu-caseiro.
Aliás, velho eu, pois sempre fui assim, às vezes tão caseiro que mesmo em casa não me encontram.
Apenas dentro da minha mente.
Mas deixemos de divagações. Vamos à realidade!

Eis que hoje no trabalho – como quem ainda pensa estar trocando filosofias ébrias (rs) – norteio minha atenção a uma coisa interessante: que carência tem o mundo!
Vejo, aqui no reino da Terra, que as princesas nascidas a partir do ano de 1950 têm tanta história depreciativa de homens pra contar! Um desdém infame ao ‘foram felizes para sempre’.
Numa pesquisa de última hora com, no máximo, 20 pacientes mulher que atendi esta segunda-feira, vi que 95% delas, além de usarem ferradura quase que a vida inteira, ainda precisam terminar de polir as cicatrizes da infidelidade, nelas, vorazmente investidas.
Eu, como fisioterapeuta qualquer, acabei descobrindo que não posso contra este novo tipo de artrose (ou insuficiência cardíaca congestiva).
Uma dor crônica de cotovelo d’alma, que vão ficando – com o passar dos anos – cada vez mais frequentes. Vem virando lesões por esforços (vãos) repetitivos. Os famosos “LER” do coração.
Estas princesas, como se não bastasse suas decepções com os príncipes (ou sapos), eventualmente têm ensinado às discípulas da família real que não se deve confiar nos homens, e que o reino da Terra vive de libertinagem e falta de confiança.
(O que é, de certa forma, coerente. A tendência é sempre piorar. Não vejo mais ninguém casando.)

Meu Deus! Que dor forte é essa que as imbui!?
Como um mero fisioterapeuta pode amenizar esta dor e melhorar a qualidade de vida destas mulheres?

Sinto-me extremamente ultrapassado neste mundo.
É como se, de ponta-cabeça, tudo fizesse sentido.
Vejo uma falta de amor em tudo.
Vejo pessoas carentes sem saber como se livrar disso, sequer lidar com isso! Agem de uma forma tão estranha.
Vejo minha espécie se extinguir, e dá vergonha de ser homem.
E não só uma vergonha, como uma incapacidade.
Não posso curar as dores destas pessoas!
Por mais que meu tratamento, nesse caso, seja só carinho e atenção – como sempre é – infelizmente minh’alma só aceita amar uma só.
Uma andorinha não faz verão não!
Eu amo as mulheres! Quem não as ama? Elas merecem muito mais do que uma resposta pífia à sua sensibilidade intensa, sua beleza inata e sua existência.
Que não quebrem as costelas de Adão!

Inabilitado e de mãos vazias, apenas tento fazer minha parte, esperando que cada um faça a sua.
E no fim de mais um dia de trabalho e percepção, tentando me excluir disso tudo, chego numa conclusão:
Pasmem! Como tem moleque no mundo!
É até compreensível, afinal, bem difícil é ser homem.

Balde afrodisíaco, são
Tamanho era o mundo
Transbordado de admiração
Excesso
Eu, possesso

Minha íris, transformada em oceano
De marolas metafóricas
Ideias sensuais; eufóricas!
Reais
Salgadas ou não
Essência escarlate de mim!

De sombracelhas fatigadas
Vi-me delirioso!
Noutro Universo
De versos deliciosos
Sobras de gemidos; pedintes
Saudosos

Palavras
Amarras d’alma
Saboreadas por encanto
De mulher-menina

Era tanto
Era flor
Era fina
Não metade, não meia
Em meu imo
Amei-a

Pergunta-se por aí: alguém pra me dar uma função?
E por que ninguém responde?
Respostas, respostas.
Às vezes a dúvida é degustante.
É como confessar ao cãozinho, posto que, é você que late.
E à confissão, não morde.
Mas também não pula, não circula no próprio rabo, sequer procura por osso.
Existe-se, consegue captar?
Funcionemos!
Atabalhoadamente, racionalmente, intuitivamente, severamente ou pela inércia.
Este último, só virando a traseira pro céu, esperando um banho de lume da lua. E que seja sempre cheia!
Talvez nossa função é não ter função.
É circular no próprio rabo.
É pular no amor, lambê-lo e roçá-lo.
É esquecer-se de fazer, fazendo; mesmo que encha pouco o bolso.
É simplesmente ser.
Respostas? Não haverá.
Talvez as encontre no meio do caminho antes que tropece na pedra.
E quando isso acontecer, provavelmente estará na encruzilhada.
Afinal, cada resposta traz mais algumas perguntinhas.
Portanto, pergunto: pra quê ter função?
Se toda vida é vida de cão?

Como se fosse um cão.
Procurava aos portões latir
morder os ossos de plástico
e ‘desossar’ meu próprio tédio

Como se fosse um baralho.
Condensava-me, era truque e cartada
felicidade e orgulho de uns
tristeza e decepção d’outrem.

Como se fosse uma porta.
Abria-me sem sons no início
fechava-me com carinho
até que com o tempo
e o irritante barulho de seu vaivém
tornava-me obsoleto.

Como se fosse um cego.
Era normal, e ainda assim,
havia a pena nata das companhias que me rondeava.
Nada enxergava
mas podia ver além do invisível.

Como se fosse eu.
Bruto de mim
com os pêlos d’alma
ora retesados
ora raspados.

Ahhh eu! Que só me vejo no amor!
E quando fora dele
sou quadro fosco ao lado da janela
sou feijão na panela
sem pressão
esperando até hoje o tempo de
a mim próprio
cozinhar.

trocandoideia

Nunca fui de olhar para o espelho.
Talvez porque não me gostasse.
Ou não me amasse.

Nunca fui de me olhar.
Talvez porque não me atraísse.
Ou por plena babaquice.

Neste momento, milhões de bebezinhos nascem no mundo.
Uns bonitinhos, outros feinhos.
Outros mais, uma gracinha, ‘cuti-cuti’.

Neste momento, dentes juvenis caem.
Uns são jogados no telhado.
Outros presos no caderninho da Tia-da-escola.
Outros mais, abruptamente arrancados.
Tornando as belezinhas – ou feiurinhas – banguelas.

Neste momento, alguns amam o espelho.
Estão felizes com seus corpos.
Imaginando as maravilhas do mundo em si.

Neste momento, alguns odeiam o espelho.
Reclamam da celulite tipo 3.
Ou da gordurinha no culote.
Ou, simplesmente, do nariz de chapoca.

Eu? Apenas olho.
Nada vejo.
O reflexo ali?
É apenas o reflexo.
Seria verdadeiro?
Seria bonito? Feio? Grande? Pequeno?
Prefiro não mais julgar.
Assim consigo me amar.

Num breve momento, olho-me nos olhos.
E penetro na íris, insólito.
Sinapses me mostram fofocas sobre endorfinas.
Serotoninas.
Todas essas vedetes químicas que nos acariciam o ego.

Evito ouvir.
Não quero aquilo ali.
Procuro algo profundo.
E perco-me em mim.
Num leviano ermo melancólico.

Desço alguns centímetros.
180 de mim (vem-me à mente).
E encontro o carmim.
Abro-me a porta pericárdica com a chave mestra.
E me surpreendo.

Ali, puro, o amor de mim.
O amor pleno. Poético e romântico.
O amor inveterado, que libera bregas cânticos.
Como harpas de anjos tão consonantes.
Que por um instante.
Na taquicardia, encontrei-me de mim.
E não apenas por mim!

Encontrei amigos.
Encontrei amores.
E te encontrei.

Dali, o líquido carmim que viajava por mim.
Fez-me brilhar os olhos.
Esmerar o sorriso.
Colorir minha pele.
Olorizar cada centímetro de mim.

Dali.
Amei-me plenamente.
Não mais encontrei-me temente.
E inefavelmente.
Amei-te.
Assim, dois num só.
Profundamente.
Sente?

Às vezes, ficamos sem gravidade.
Não é de costume flutuarmos sempre, poucas pessoas tem o dom (ou o defeito) em conseguir fazer isso.
Muitas vezes, a gravidade se perde devido a um amor, paixão, depressão, sorte grande ou azar demasiado.
Eis que nossos metros por segundo transformam-se em quilômetros por hora, e nossa energia potencial perde-se toda, ao despencarmos em movimento uniformemente variado. Uma queda acelerada no vácuo de nós.
Esta queda flutuante, faz com que a pressão exercida sobre nós aumente, mas, a mesma, nunca nos mata.
A temperatura sobe e nosso volume diminui.
Nossa frequência em hertz acaba por irritar os bem próximos a nós e também os não tão próximos.

É neste momento que necessitamos de ajuda.
Precisamos simplificar o que nos acontece, talvez com polias, talvez com alavancas.
Das alavancas, a interpotente não me enche os olhos, pois é forte, rápida e não condiz com atitudes laxas.
Das outras duas, sobra-me a interfixa, que faz eu fixar o problema na própria simplicidade dele, não precisando utilizar-se de grande resistência, como na interresistente.

É quando, nesta parte da vida, começamos a descobrir o complexo de nós.
É quando começamos a evoluir nos colocando capacitores e resistores, equilibrando nosso campo elétrico e potencializando nosso magnetismo.
Nossos próprios pólos, já não são tão inconstantes e, em torno de nós mesmos, começamos a rotacionar, girarmos em torno de nossas próprias dicotomias, entre viver e sonhar, encantar e machucar, sorrir e chorar.
É o que nos faz viver.
Faz nosso mundo realmente rodar.
E para viver, aproveitando tudo que há, devemos, sem pestanejar, estar sempre em nosso espectro eletromagnético, que nos intui, posto que, às vezes, as cores são bem visíveis e n’outras mais, os sons são inaudíveis.
Este é o segredo.
Sabermos e compreendermos que nós, na natureza, somos os únicos que traduzimos, em nossa máquina racional, sua beleza, e esta, ao ser traduzida, nos impregna mostrando e dando uma função neste mundo.
Traduzir a nós mesmos.
Viver.
Cabe a nós pormos energia nisso e vivermos da melhor forma a física bela e inebriante da vida.