No barco que cheira a fumo
A proa chora e descasca
A água arrebenta e lasca
A casa dos viajantes sem rumo

A arquitetura d’antes bela se fora
A casa, virara um barraco
Fétido, como o anfitrião matraco
De negligência incriminadora

Não brilha mais o verniz
O velejar tornou-se um horror
Cada lasca perdida é a dor
Dor de amor, que naufraga infeliz

Os viajantes ao cederem a quilha
E os anfitriões ao mostrarem-se laxos
Afundaram-se em seus próprios bombachos
Perderam-se ao ilharem, sem ilha

Hoje quem cheirava a fumo
Aninhou-se à natureza fidalga
Cheira a peixe, plâncton e alga
Exala a paz, solidão e prumo

Abissal, espera-se que fique
Recolhido, só, porém sendo
Nunca fora um barco morrendo
Nem tão vivo igual ao Titanic

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