Sei que é no escuro que começo a viver.
Que no claro, tudo ofusca, tudo faz doer.
Os feixes penetram de forma cancerosa que nem mesmo há câncer de pele que nos apodrece o pelame, talvez já putrificado de lamúrias mentais.
É no escuro que me vejo.
É no escuro que me almejo.
É no escuro que me estimo.
E é no claro que gotejo…
…milímetros a milímetros, de mim, liquefeitos.
Derreto-me.
Nada sou.
E fundo-me à sarjeta, esperando a noite para ser.
Fazer, fantasiar, encantar.
Meu eu obscuro é o mais puro e encantador que já inventaram.
Meu eu claro, nada o é.
Meu eu negro empunha o coração sangrando e aperta-o com demasiada força para que pulse com vigor.
Meu eu claro, é decesso.
Talvez eu seja, uma eterna sombra de mim que aspira à primeira penumbra para recostar.
Talvez eu seja dúvida.
Talvez, só reste talvez.
E o escuro da vida.
Discreto.
Pacato.
Fujão.
No escuro, o desejo é de estar só.
Mas lembro-me que…
…já estou.

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