trocandoideia

Nunca fui de olhar para o espelho.
Talvez porque não me gostasse.
Ou não me amasse.

Nunca fui de me olhar.
Talvez porque não me atraísse.
Ou por plena babaquice.

Neste momento, milhões de bebezinhos nascem no mundo.
Uns bonitinhos, outros feinhos.
Outros mais, uma gracinha, ‘cuti-cuti’.

Neste momento, dentes juvenis caem.
Uns são jogados no telhado.
Outros presos no caderninho da Tia-da-escola.
Outros mais, abruptamente arrancados.
Tornando as belezinhas – ou feiurinhas – banguelas.

Neste momento, alguns amam o espelho.
Estão felizes com seus corpos.
Imaginando as maravilhas do mundo em si.

Neste momento, alguns odeiam o espelho.
Reclamam da celulite tipo 3.
Ou da gordurinha no culote.
Ou, simplesmente, do nariz de chapoca.

Eu? Apenas olho.
Nada vejo.
O reflexo ali?
É apenas o reflexo.
Seria verdadeiro?
Seria bonito? Feio? Grande? Pequeno?
Prefiro não mais julgar.
Assim consigo me amar.

Num breve momento, olho-me nos olhos.
E penetro na íris, insólito.
Sinapses me mostram fofocas sobre endorfinas.
Serotoninas.
Todas essas vedetes químicas que nos acariciam o ego.

Evito ouvir.
Não quero aquilo ali.
Procuro algo profundo.
E perco-me em mim.
Num leviano ermo melancólico.

Desço alguns centímetros.
180 de mim (vem-me à mente).
E encontro o carmim.
Abro-me a porta pericárdica com a chave mestra.
E me surpreendo.

Ali, puro, o amor de mim.
O amor pleno. Poético e romântico.
O amor inveterado, que libera bregas cânticos.
Como harpas de anjos tão consonantes.
Que por um instante.
Na taquicardia, encontrei-me de mim.
E não apenas por mim!

Encontrei amigos.
Encontrei amores.
E te encontrei.

Dali, o líquido carmim que viajava por mim.
Fez-me brilhar os olhos.
Esmerar o sorriso.
Colorir minha pele.
Olorizar cada centímetro de mim.

Dali.
Amei-me plenamente.
Não mais encontrei-me temente.
E inefavelmente.
Amei-te.
Assim, dois num só.
Profundamente.
Sente?

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