Como se fosse um cão.
Procurava aos portões latir
morder os ossos de plástico
e ‘desossar’ meu próprio tédio

Como se fosse um baralho.
Condensava-me, era truque e cartada
felicidade e orgulho de uns
tristeza e decepção d’outrem.

Como se fosse uma porta.
Abria-me sem sons no início
fechava-me com carinho
até que com o tempo
e o irritante barulho de seu vaivém
tornava-me obsoleto.

Como se fosse um cego.
Era normal, e ainda assim,
havia a pena nata das companhias que me rondeava.
Nada enxergava
mas podia ver além do invisível.

Como se fosse eu.
Bruto de mim
com os pêlos d’alma
ora retesados
ora raspados.

Ahhh eu! Que só me vejo no amor!
E quando fora dele
sou quadro fosco ao lado da janela
sou feijão na panela
sem pressão
esperando até hoje o tempo de
a mim próprio
cozinhar.

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