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Era noite. A lua já ia preguiçosa pousada nas nuvens, que bruxuleavam o choro diário da vida. O vento era forte e espaçoso, quase onipresente. Como um educador, comandava os movimentos dos eucaliptos e alvoroçava a ramagem. O guia e sua cadela passeavam mata a dentro e o cheiro de umidade, na pele (e no pêlo) da experiência, não os amedrontava. Havia pilha e mantimentos. Procuravam um local para que pudessem passar aquela noite. Pareciam conhecer exatamente cada centímetro daquela floresta. Ainda que tivesse escuro, a lanterna cortava num grandíssimo diâmetro o negrume do caminho e, por vezes, revelava a fauna em polvorosa, esperando a presença da rainha chuva, que irritadiça, punha-se a demorar.
Sua amiga peluda mostrava impaciência com as narinas, parecia farejar alguma falta de rotina. Ao longe, avistaram uma jovem. Talvez estivesse perdida, mas nada havia em seu semblante. O guia tentou imaginar por que uma jovem tão bonita quanto aquela desafiava o agreste que a eles não mais parecia tenebroso, mas ainda era. Hesitou em aproximar-se, mas perguntou:
– Estás perdida?
E ela respondeu:
– Quisera realmente saber!
– Não tens medo da escuridão da mata? Ou de não saberes o caminho de volta? – Perguntou o guia.
– Que perdição poder-se-ia, se é a escuridão que talvez procure; se o caminho, talvez ainda não exista.
O guia resolveu perguntar seu nome. A jovem, prontamente respondeu:
– Meu nome é Alma.
Encucado com tamanha incerteza da moça e pela infixidez das respostas finalizou:
– Srta. Alma. Toma cuidado com o escuro! É na noite da natureza que a morte tende a foiçar. Quiseres companhia, segue conosco o rumo!
A moça deu um sorriso débil e no semblante cândido respondeu:
– Senhor, rumo? Não conheço este lugar, mas parece não me amedrontar. Jamais consegui vir tão fundo à escuridão. Talvez, para mim, não haja caminhos e, tão parada, sinto que a tempestade já-se me-quer ceifada. Porém, olhar as luzes me alentam, senhor. Os relâmpagos, a Lua; esta impõe, neste momento, elevado o meu medo por escuro que se esfaz nos lampejos rutilantes daquelas nuvens caçoantes. Agora sei que porvir é um entendimento, uma identificação; uma compreensão de tudo que sempre pude, apenas, entrever. Talvez deva caminhar ao seu lado sim, senhor, enquanto estou a me esperar encontrada. Vir a este aparente Nada, energiza… – Neste momento a tempestade caiu. O orvalho refletia toda sua tez revelando uma Alma quase nua.
– O senhor… poderia dizer, ao menos, seu nome?
O guia respondeu:
– Meu nome é Tempo. E esta cadela chama-se Fé.
E desde então o caminho de volta tem sido fácil…