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Ah! A Rua!
Não aquela da Alfândega, um deserto onde as areias tão juntas, são pessoas, quentes por ironia.
Não aquela da Consolação, consolada pelas buzinas dos estressantes engarrafamentos.
Não aquelas de Pompéia! Engolida e escavada pela regurgitação d’uma vovó!
A minha rua!
Onde os fios de alta tensão embrulhavam e seguravam as quimeras pueris:
os meninos a correr pelo sonho preso à rabiola!
Mais tarde talvez soubessem-se cabestro,
burlesco,
burleto…

– “Avuou, bora lá!” – Gritavam os pés ‘sujismundos’ em uníssono!

E lá se iam os fios provocarem alta tensão aos pais!
Nem tão longe de nós, as meninas já eram safadinhas.
Não havia uva, pêra ou maçã a se comprar
nas intermináveis feiras do beijo.
O amor era lídimo! E a brincadeira, já, falsária!
Cada bulica ganhava uma propina:
“- Mais areia por favor!” confabulava um futuro engenheiro (ou pião!).
E as bolas tilintavam! Quebravam! Os dedos mais pareciam lareira de São João,
fartada do fogo louco do divertimento!

Ah! A Rua!
Onde Dona Selma alvejava coca-colas nos prodígios Ronaldinhos –
que, de fato, nunca foram, encovilados na mesmice operária que se puseram um dia.
Seu Paulo, eram dois: o Rei maneiro que de cuecas nos tirava sempre o sorriso que explodia por admirar sua princesa; e o vulgo Barbaulo, que mal sabíamos se era a barba ou sua boca suja que espetava!

Ah! Meu crendeiro morto!
Ah! A Rua!
Ah! Seu caminho!
Quanto mais crescemos
mais nos parece torto…

Desde que nasci, os feixes do sol me convidam abrir os olhos.
Vou despertando-me dias, nem sempre iguais, nem sempre diferentes e nunca, neles, deixo de olhar pela janela.
Cresci fitando das frestas meu vizinho lá de cima.
Mil vezes trocadas as janelas, inda assim o sol é o mesmo, a vida é a mesma, o dia é o mesmo e o vizinho está lá.
Não me adianta tornar distendidos os braços. Eles jamais tatearão o vizinho.
Ele, por sua vez, nunca se soube cansado de me escarnir e tampouco diminui seu sorriso (nem o meu por isso).
Não me quero mais boneco de vitrine!
Não desejo uma janela que me limita, me esvaece conjecturas; que estão de braços abertos para o vizinho enquanto, estacado, só o tenho olhos.
De incessantemente olhar, minh’alma não se aguenta receber sóis, azuis e cores adjacentes e nem sequer excita com favônios meigos.
Meu olhar deseja o vizinho.
Ele está lá, sempre…
Eu o sei, o conheço, o desejo, contudo esta infame janela me idiotiza tocá-lo.
Meu vizinho existe e talvez se queira meu.
Está aqui, tão do lado… e tão longínquo!
Meu vizinho: nada mais que meu sonho…