Desde que nasci, os feixes do sol me convidam abrir os olhos.
Vou despertando-me dias, nem sempre iguais, nem sempre diferentes e nunca, neles, deixo de olhar pela janela.
Cresci fitando das frestas meu vizinho lá de cima.
Mil vezes trocadas as janelas, inda assim o sol é o mesmo, a vida é a mesma, o dia é o mesmo e o vizinho está lá.
Não me adianta tornar distendidos os braços. Eles jamais tatearão o vizinho.
Ele, por sua vez, nunca se soube cansado de me escarnir e tampouco diminui seu sorriso (nem o meu por isso).
Não me quero mais boneco de vitrine!
Não desejo uma janela que me limita, me esvaece conjecturas; que estão de braços abertos para o vizinho enquanto, estacado, só o tenho olhos.
De incessantemente olhar, minh’alma não se aguenta receber sóis, azuis e cores adjacentes e nem sequer excita com favônios meigos.
Meu olhar deseja o vizinho.
Ele está lá, sempre…
Eu o sei, o conheço, o desejo, contudo esta infame janela me idiotiza tocá-lo.
Meu vizinho existe e talvez se queira meu.
Está aqui, tão do lado… e tão longínquo!
Meu vizinho: nada mais que meu sonho…

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