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Não há muito o que deixar para os vivos enquanto, entre eles, estive sempre morto. Fiz meu testamento há algum tempo e tenho a impressão que cada bem me foi levado sem que eu mesmo percebesse.

Deserdei meu coração ao mundo e, sobretudo, a mim mesmo. Foi há muito tempo quando o mesmo se soube longe das festas das ramas. Tirei-o do trabalho físico de pulsar quando o descentralizei de toda energia, convergindo-a ao pensamento. Desde então, em cada segundo ele desintegra como se ao pó já tivesse voltado. Vez ou outra o mesmo pó retorna às mio-paredes e o petrificam.

Hoje, neste testamento, pretendo a ele um herdeiro, porém minha humildade não clamaria por um ourives, tampouco escultores ultrassensíveis que enaltecem amores exagerados. Não os tive, mesmo que exagerados os sentissem. Petrificado e empoado, dôo-o às mãos de um escavador qualquer. Que este faça bom proveito e novos sulcos, que talvez sirvam para que neles cative-se algo ou alguém.

Como eu havia escrito, não há muito o que doar, já que deixei de viver e ambicionar o mundo das matérias. Aliás, não, totalmente deixados de lado, quero os meus cigarros. O tabaco, meu maior companheiro, deve estar comigo no momento em que de seu mundo eu fizer parte. Meu pulmão, pressinto, daqui das trevas, será mais belo e menos julgado.

De meu bem, o mundo já está cheio. Não sei se “doá-los” seria a palavra correta, já que me existem em abundância os pensamentos: deixo-os em bytes ou em folha; deixo-os em voz, em semblantes, em sorrisos e em algumas quase indecifráveis sensações; deixo-os vivo, enquanto deles jazo…

Quando o sol visita a janela, o que estava escondido aparece. A cama, nem macia nem dura, exala o bege assim como os travesseiros. O piso, um cinza esverdeado, passa a esfriar menos os pés. Uma pedra prende a porta aberta, como se desejasse abrir este caminho pela eternidade. Uma cadeira, duas, três confabulam seu tamanho: a primeira é pequena, onde só crianças sentaram; a segunda lembra um passado distante desfraldado pelo ventilador que a assenta; a terceira sofre meu peso e meu pesar.

Um teclado mudo tem sinais de poeira e por isto parece chorar emudecido, no silêncio que nunca espanta males. Alguns tênis e chuteiras fazem fila, junto ao armário feito por encomenda. As partes do armário encaixam-se perfeitamente nos flancos da cama, como que desenhados em perfeição. Há duas partes, a direita e a esquerda. Na direita, duas portas. Não lhes ouso abrir por sabê-las guardando a inquietude de uma alma desorganizada. Na esquerda, uma só, onde prendi memórias de um coração quente.

Há fios, canetas, joysticks, livros, cd’s, talento de pintura de uma mãe, caixas de som e souvernirs por toda mesa. Uma peruca do melhor estilo black power espera a chance de trazer sorrisos e um copo de água hidrata a secura de colorido. Um abajur exótico e futurista ajuda a apagar a negrura eventual. Uma chave, gavetas e uma CPU. Esta última, parece brilhar desde que nasceu, juntamente com os milhões de vagalumes formando um retângulo, nítidos, rutilando as cores do mundo, que se dependuram e bruxuleiam na parede.

A alva desta parede torna-se também bege quando o frio uiva lá por fora e dourada quando não. Aonde se lê estes escritos, mais vagalumes. Muitos! Belos, coloridos. E em sua frente alguém sem motivo para descrevê-lo, mas o fazendo ainda assim, jurado pelo tédio e pela projetada falta de sorte, profissão, vontade ou vergonha.

E enfim, o reflexo de um sem-vergonha, vestido de palavras que nunca lhe trarão felicidade. Este apenas passará, escrito nos olhos de outrem, como se fosse um souvenir descrito por Deus em qualquer outro quarto de Sua casa…